Sua gestão não é inclusiva. Seu negócio não é resiliente. Sua empresa não constrói legado. E esse cenário pode ser positivo.

23 de dezembro de 2024

Esse artigo perpassa por dimensões que vem sendo desenvolvidas por mim nos últimos três anos sob o constructo Allboarding®, e que estão sendo organizadas em um livro que será lançado pela Alta Books, muito provavelmente no próximo ano.

Fadiga, Impaciência e Tensão. Dentre toda sorte de palavras possíveis para começar a falar sobre o que foi 2024, escolho uma trinca com duplo viés: primeiro, a aceitação do caos, afinal, aceitar a realidade é a melhor maneira de lidar com ela e, segundo, sermos capazes de enxergar oportunidades a serem consideradas nos processos de tomada de decisão estratégica e gerencial.

Também gostaria que considerassem outra trinca de substantivos que serão tratados nesse artigo como possibilidades de calibragem das bússolas, em maior ou menor grau a depender dos contextos nos quais você, que me lê, e os negócios dos quais faz parte, convive. São eles Comunicação, Responsabilidade e Impacto.

O objetivo desse artigo é provocar reflexões a partir das interações não repetidas e possíveis entre uma proposta de comunicação ampliada para além do campo teórico da área[1]. Assim, contribuir para mais possibilidades de ampliar o alcance dos investimentos — de tempo, de dinheiro, de recursos, de foco das nossas pessoas e, certamente, muitos outros que você conseguirá relacionar a partir da sua atuação. Portanto, fortalecer a tomada de decisão estratégica e de gestão, com vistas um pouco além do retorno imediato.

Assim que se você busca respostas simples, esse texto não vale a sua leitura e jamais tentaria convencimento no sentido contrário. Agora, se busca ampliar seu olhar por meio de uma outra perspectiva, que não necessariamente traz novidades nos conceitos, mas sim em suas possibilidades de aplicabilidade, sigamos adiante.

Inclusive, vou adorar saber qual o seu entendimento uma vez que tenha lido uma proposta de discussão cautelosamente otimista, ou realista esperançosa, com alguns lapsos de crença e direcionamento por um propósito maior que dialogam com o que muitos autores vêm propondo há cerca de uma década.

Expectativas alinhadas, seguiremos com proposições de interações, concluindo com provocações à reflexão e chamados para ações válidas para serem consideradas como alavancas de inovação e fortalecimento estratégico para aqueles negócios que estiverem abertos a aceitar a realidade como ela é e, assim, moverem-se rumo a alternativas mais resilientes.

Fadiga & Comunicação

Sofremos revezes importantes em 2024, como a desmobilização de investimentos nas esferas sociais organizadas corporativamente sob áreas e atividades de sustentabilidade e ESG.

Infelizmente, organizações e instituições ainda separam pessoas dos negócios, economia de bem-estar, desenvolvimento de exercício de cidadania. Como se o capital pudesse existir a despeito de quem produz.

Muita coisa vem sendo comunicada nas entrelinhas desses comportamentos e vou me ater a um aspecto: ineficiência. Para qualquer empresa extinguir sua área de diversidade, equidade e inclusão, por exemplo — e vimos alguns grandes exemplares delas fazendo esse movimento em 2024 —, está evidente que os investimentos[2] não foram feitos de maneira estratégica.

Agora, vou sugerir que façamos uma transposição desse mesmo comportamento para o tanto de (re)priorizações necessárias a todo momento. Certamente que nossa cultura imediatista impede reflexões e análises de cauda mais longa, capazes de apontar para a viabilidade ou não de determinadas investidas e arranques desenfreados. Está claro que o momento atual requer agilidade no processo de tomada de decisão e que a volatilidade está sentada à mesa no dia a dia. Mas tanto assim?

Impaciência & Comunicação

Não temos tempo a perder e a paciência (de quem a tinha) já não funciona mais da mesma forma. Antes que você pense que essa proposição se choca com a anterior, o que é não só compreensível, como reação que evidencia a validade dessa proposição, vamos pensar no custo do ir e vir, mobilizar e desmobilizar entregas, gerando impactos distintos em diferentes públicos.

Centralidade no cliente, experiências, estratégia de canais, atendimento a necessidades diversas e posicionamentos que insiram as marcas com relevância nos contextos de vida dos consumidores se tornam mandatórios para negócios que desejam permanecer do tamanho que estão, ou ampliar share de mercado. Não estou trazendo somente o olhar para quem consome produtos ou serviços, mas para públicos impactados.

Se você ainda não pensou nos funcionários em qualquer regime de trabalho, inclua-os, por favor, na lista, assim como vale ressaltar que tudo isso só é, de fato, tangível e possível se a tomada de decisão estratégica considera o custo do impacto nessas variáveis, que, ao contrário do que vemos em muitas organizações e instituições, não é solucionável na ponta, mas consequência de uma cadeia de decisões que impactam direta e indiretamente na qualidade das experiências de todas as pessoas, comunicando um sem número de dissonâncias entre o walk e o talk.

Nesse sentido, o equilíbrio entre automação e interações humanas é imperativo. Afinal, é real a exaustão com a tecnologia que torna mais custosa a experiência para resolver algo que uma pessoa conseguiria compreender e resolver rapidamente, desde que de posse de autonomia para agir.

Tensão & Comunicação

A produtividade — divisão do Produto Interno Bruto (PIB) pelo número de horas trabalhadas — das pessoas no Brasil nos últimos 40 anos vem crescendo próxima de 1% ao ano[3], uma das mais baixas do mundo. No ranking do Institute for Management Development (IMD), ocupamos as últimas posições. Isto a despeito do aumento de pessoas com ensino médio completo e curso superior.

Trabalhamos muito. Rendemos pouco.

O ambiente laboral, assim como a sociedade, é permeado por um coletivo de tensões que perpassam demandas por mais dignidade, que já não são sanadas com discurso pró-engajamento, narrativas, ou conexão por propósito[4], versus a adoção de tecnologias de monitoramento de atividades, inflexibilidade de modalidade de trabalho e de contratos, como open talent.

Estresse e burnout nunca foram tão comuns em todos os níveis das organizações, com reflexos diretos nos níveis de engajamento.

Não é novidade que o caminho para equilibrar as tensões passa por humanidade, autenticidade e honestidade, possíveis de sintetizar em gestão participativa e respeito, e por mais diversidade na construção das relações e interações com vistas aos campos de autonomia possíveis entre as regras heteronômicas e ontonômicas.

A imagem representa a cultura de uma organização como produto da convivência entre três conjuntos de regras, que estão estabelecidos dentro e fora do ambiente organizacional, e colocados em prática por nós, as pessoas.

Cada vez mais, espera-se conhecer visões de futuro, o que facilita a contextualização das mudanças constantes, amplia a sensação de segurança e, consequentemente, o bem-estar das pessoas. Da mesma forma, que caminhemos na direção de que tarefas e desafios simples sejam delegados à tecnologia e a inteligência artificial, ao tempo que a complexidade seja a proposição de valor das pessoas — desde que haja suporte de educação, institucionalidade e desenvolvimento para tanto.

Responsabilidade & Comunicação

Não está claro para a sociedade que o conceito de responsabilidade é compreendido e exercido pelas organizações como parte do legado em construção por suas atuações, desde o estrato mais estratégico de tomada de decisão a consideração das externalidades[5]. Seguir delegando para outros atores sociais a responsabilidade que deveria ser assumida é ampliar um passivo não só de riscos a serem geridos, como de judicializações que já começam a contar com precedentes em outros países.

Essa dimensão agrega a importância de que pessoas — se precisamos lidar com desafios complexos enquanto não podemos ser totalmente substituídos pela tecnologia, o que, convenhamos, é sonho de muitas companhias — precisam ser desenvolvidas em dimensões de conhecimento, habilidade e competência para além do que apregoa o engessado descritivo hierárquico de cargos.

Novamente, vemos a oportunidade de produtividade escoar pelo ralo da falta de visão estratégica para o papel das organizações no desenvolvimento de pessoas, e, porque não dizer o papel que cabe às organizações no arcabouço educacional da pessoa, uma vez inserida no mercado de trabalho. Esta janela de discussão não será fechada nesse texto.

A dimensão da responsabilidade é comunicada no fazer, no exercício de tomada de decisão que expõe quem é a marca como rosto da estratégia de negócios[6]. Não há perspectiva de longo prazo no horizonte para delegação do cuidado dessa dimensão reputacional a, somente, escopo dos departamentos técnicos de marketing, comunicação ou sustentabilidade, e correlatos.

Impacto & Comunicação

Novas conexões e significados na relação entre empresas e pessoas estão em construção e requerem uma visão de cadeia de valor não somente aos processos de gestão estratégica, mas para viabilizar o encadeamento dessas decisões ao dia a dia do negócio. Para simplificar experiências[7], é preciso um olhar de impacto e proximidade, mais orgânico e com menos assepsia e formalidade.

Temos muito que nos inspirar no que vem sendo feito no campo da rastreabilidade. Ela, literalmente, chafurda nos elos das cadeias para identificar fragilidades e oportunidades de ganhos de eficiência, segurança e transparência na comunicação do valor de um negócio em todos os seus pontos de impacto.

Nesse sentido, a mentalidade de impacto pode atuar como catalisadora da inovação.

Mas não aquela a qualquer custo, calcada em premissas de modelos de negócios que precisam urgentemente serem descredenciados como casos de sucesso pelo que já sabemos de retrocessos políticos, regulatórios, econômicos, ambientais e sociais que imprimem por onde passam, e sim as que considerem caminhar adiante na distensão da fadiga, da impaciência e das tensões, ampliando a comunicação sobre os compromissos assumidos e entregues a partir da responsabilidade sobre os impactos intrínsecos ou decorrentes das decisões.

Allboarding

Allboarding® significa todos a bordo, constructo que representa estratégia e gestão para todos, considerando o equilíbrio de interesses[8] e a mentalidade de impacto como premissas para promoção de impactos positivos que atendem à volatilidade dos cenários, às pressões sociais, econômicas e ambientais, bem como fortalecem o relacionamento das organizações com seus públicos, visando à resiliência e ao senso de legado.

Sua gestão não é inclusiva. Seu negócio não é resiliente. Sua empresa não constrói legado. E esse cenário pode ser positivo se deixarmos o talk de lado e focarmos no walk, preferencialmente em uma direção que demande a ampliação das forças institucionais para amadurecimento das dimensões de regulação, infraestrutura, bem-estar social e segurança, e orientem as decisões de negócios rumo a um legado que não deixe nossa geração marcada como a que tinha todas as informações para tomada de decisões, mas resolveu dobrar a aposta. 


[1] Para aqueles que me leem pela primeira vez, cabe ressaltar que minha abordagem de comunicação não se limita aos referenciais teóricos e limites de aplicação estabelecidos dentro das organizações, mas se vale, principalmente, de outros campos, como sustentabilidade e gestão de pessoas e negócios, para pressionar por campos de visão mais largos visando estratégias responsáveis e orientadas pós-propósito. 

[2] Por favor, sempre que me referir a eles, os investimentos, estou considerando não somente o financeiro, mas tempo, esforços, recursos, equipes e tudo o que é necessário para desenvolver alguma coisa dentro de uma instituição ou organização. 

[3] Dados da Fundação Getúlio Vargas.

[4] Recomendo a leitura de um artigo sobre o tema, disponível em https://www.ceciliaseabra.com.br/proposito-para-quem/

[5] Para Boutang (2012) a externalidade aparece quando uma transação comercial ou não tenha como consequência um efeito positivo ou negativo sobre um terceiro.

[6] Aaker, 2015.

[7] Recomendo a leitura do Life Trends 2025, da Accenture, disponível em https://www.accenture.com/content/dam/accenture/final/accenture-com/document-3/Accenture-LifeTrends2025-Report.pdf#zoom=40

[8] Seabra, 2021.

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